
Era uma manhã comum, daquelas em que o calor do sol filtrado pelas persianas parecia conspirar para nos fazer acreditar que o mundo ainda era o mesmo de ontem. Eu tomava meu café, scrollando o feed infinito do celular, quando uma notícia piscou na tela: “Inteligência artificial agora aprova empréstimos bancários sem intervenção humana.” Ri por dentro, lembrando dos anos 90, quando falar em máquinas pensantes era coisa de maluco, de teoria conspiratória sobre o fim da humanidade. Hoje? Aceitamos sem piscar, como se fosse natural que algoritmos decidam nosso futuro financeiro. Mas parei para pensar: quantas coisas, outrora impossíveis ou inaceitáveis, viraram rotina disfarçada?
Voltei no tempo mentalmente, para os dias em que vigiar alguém era crime de filme de espionagem como Inimigo de Estado de novembro de 1998 com Will Smith, no qual ele vive Robert Clayton Dean, um advogado bem-sucedido em Washington, recebe um vídeo que mostra a ligação entre um oficial do alto escalão da Agência Nacional de Segurança a um assassinato político. A partir daí, Dean se transforma em um alvo constante para a mais perigosa e treinada equipe do governo. Utilizando todos os meios que para nós na época era considerados ficção ou inaceitáveis para arruinar sua carreira e conseguir o vídeo de volta, a equipe inicia uma caçada sem tréguas. Dean precisa lutar para salvar sua vida e provar sua inocência.
Usando satélites como nas proféticas teorias sobre “Big Brother” – aquele olho onipresente de Orwell – eram rotuladas como paranoia de chapéu de alumínio. “Ninguém vai monitorar sua vida inteira!”, diziam os céticos. Agora, carregamos câmeras no bolso, microfones que escutam comandos (e quem sabe o quê mais?), e apps que rastreiam cada passo para “melhorar a experiência do usuário”. Aceitamos termos de serviço quilométricos sem ler, entregando dados pessoais a corporações que valem mais que países. É “conveniência”, não invasão. Mas e se for o mesmo complô, só com um app bonito?

Mas não estamos apenas no campo policial ou politico mas também podemos afirmar hoje que existem êxito na medicina genética. Antes, editar DNA humano era ficção científica inaceitável, beirando o eugenismo nazista – uma teoria conspiratória sobre elites criando super-humanos. Dolly, a ovelha clonada, era o monstro de Frankenstein dos tabloides. Hoje, CRISPR corta e cola genes como se fosse um editor de texto, curando doenças hereditárias em embriões. Pais escolhem traços dos filhos em clínicas de fertilidade, e vacinas de mRNA, outrora vistas como “experimentos forçados”, salvaram bilhões na pandemia. Aceitamos implantes cerebrais para tratar Parkinson, sonhando com chips que nos conectem à internet mental. É “progresso”, não manipulação. Mas quem garante que não estamos brincando de deus, como alertavam as vozes marginais? Mas quem diga que estas gigantes da área medica mundial e as de tecnologias se fundiram conglomerados ofertando pelo melhor preço soluções discutíveis como no filme Repo Men: O Resgate de Órgãos onde quem não pagar, não tiver crédito (dinheiro virtual) terá seu órgão implantado removido.
E os costumes sociais? Relacionamentos poliamorosos, antes inaceitáveis, escondidos em sombras de escândalo, agora desfilam em séries de TV e apps de namoro. “Poliamor é teoria conspiratória contra a família tradicional!”, gritavam conservadores. Hoje, livros de autoajuda e podcasts normalizam múltiplos parceiros, com termos como “relacionamento ético não-monogâmico”. Aceitamos porque “cada um sabe de si”, mas ignora-se o quanto isso reflete uma sociedade fragmentada, onde o compromisso vira opção descartável.
Não esqueçamos o dinheiro digital e esse pode ser o que poderá causar uma nova grande guerra.
Moedas cripto eram conspiração de hackers anônimos, impossíveis de regular, inaceitáveis para bancos centenais. “Vai acabar com a economia!”, profetizavam especialistas. Agora, Bitcoin é ETF em Wall Street, e carteiras digitais substituem cédulas. Aceitamos pagamentos sem contato, blockchains rastreando tudo, enquanto governos lançam suas próprias moedas digitais para “facilitar”. É “inovação financeira”, não controle total sobre transações.
Podemos assistir uma mudança rápida e necessária nas relações colaboradores e empresa no inesperado trabalho remoto: pré-pandemia, era luxo inaceitável para a maioria, uma “teoria conspiratória” de preguiçosos evitando o escritório. “Produtividade cai sem supervisão!”, argumentavam chefes. Hoje, home office é norma, com ferramentas que monitoram telas e teclas apertadas. Aceitamos porque “equilíbrio vida-trabalho”, mas perdemos a fronteira entre casa e emprego, virando engrenagens 24/7.
Sentei-me à mesa, o café esfriando. Essas aceitações não vieram de rompantes; infiltraram-se devagar, disfarçadas de necessidade ou modernidade. O impossível virou viável pela tecnologia; o inaceitável, tolerável pela cultura; a conspiração, fato pela repetição. Vivemos em um mundo onde o outrora ridículo é lei não escrita. Talvez o maior truque seja esse: fazer-nos acreditar que escolhemos, quando na verdade, fomos moldados. E amanhã? Que nova “loucura” aceitaremos sem questionar? O sol se escondeu atrás de uma nuvem, e eu me perguntei se não era só mais uma ilusão.
Por Roberto Faustino.
