Dizem que o tempo é o melhor dos faxineiros. Ele chega de mansinho, varre as poeiras dos desentendimentos cotidianos, guarda as lembranças doces no porta-retratos da mente e, com sorte, envia o que é irrelevante para o porão do esquecimento. No entanto, há um sentimento que parece desafiar as leis da limpeza emocional: o rancor.
A Persistência da Mágoa
É curioso como a memória funciona. Esquecemos onde deixamos as chaves, o nome do colega da terceira série ou o que almoçamos na terça-feira passada. Mas, lamentavelmente, aquela frase dita com amargura há dez anos ou aquela traição que feriu o orgulho permanecem ali, com as cores tão vivas quanto no dia em que aconteceram.
O rancor é um inquilino que não paga aluguel, mas se recusa a sair. Em contraste com a leveza de um perdão ou a naturalidade do desapego, ele é pesado e denso. Enquanto outras memórias desbotam como fotografias expostas ao sol, a mágoa guardada parece ter uma camada de verniz que a protege da erosão do tempo.
O Arquivo de Ferro
O que mais assusta na natureza do rancor é a sua resiliência. Há quem diga que ele resiste até mesmo às tempestades mais severas da mente. Em casos onde a consciência começa a se desmanchar e o passado se torna um borrão — como na penumbra do Alzheimer — o rancor, por vezes, é o último a apagar a luz. É como se a dor tivesse criado uma raiz tão profunda que o cérebro, mesmo perdendo as flores e os frutos, preserva aquela cicatriz no tronco.
Guardar rancor é como carregar uma brasa quente esperando para atirá-la no outro: quem se queima, invariavelmente, é o portador. É um arquivo de ferro em meio a uma biblioteca de papel; quando tudo ao redor queima ou se apaga, ele continua lá, frio e rígido.
Talvez o segredo de uma vida mais leve não seja ter uma memória perfeita, mas sim aprender a arte de “esquecer” o que não nos edifica. Afinal, de que serve lembrar de tudo, se o que lembramos nos impede de caminhar?
Por Roberto Faustino.
