Era uma terça-feira qualquer, dessas que parecem ter sido copiadas e coladas de um dia anterior. Acordei com o despertador gritando como um vilão secundário, daqueles que aparecem só para atrapalhar o herói. Levantei, fiz café, chequei o celular – notícias ruins, mensagens não respondidas, e o trânsito lá fora prometendo ser o capítulo mais chato da história. Pensei: “Se minha vida fosse um livro de aventura, hoje seria daqueles episódios de transição, sem grandes batalhas, só para o público respirar.”
Mas a vida não avisa quando o roteiro muda.
Saí de casa e, no elevador, encontrei a vizinha do 1203. Ela carregava uma caixa de papelão cheia de livros velhos, com o olhar de quem está se mudando ou se desfazendo de um pedaço da própria história. Conversamos. Ela me contou que, depois de vinte anos no mesmo emprego, tinha sido demitida. Chorou um pouco ali, entre o 8º e o 10º andar. Eu não soube o que dizer, só ofereci um abraço desajeitado e um “vai dar certo”. Quando as portas se abriram no térreo, ela saiu sem olhar para trás. Eu fiquei pensando: se isso fosse um episódio de série, aquele seria o momento em que o espectador percebe que o personagem está prestes a virar o jogo.
Continuei meu caminho. No metrô, sentei ao lado de um menino de uns dez anos que lia um livro de fantasia, daqueles grossos, com capa de dragão. Ele ria sozinho de alguma cena, e eu me peguei sorrindo também. O garoto notou, virou o livro para mim e disse: “Olha, o herói acabou de perder tudo, mas ele vai voltar mais forte”. Foi quando entendi: a vida não é só sobre os grandes triunfos. É sobre os capítulos em que o herói perde, chora, cai, e mesmo assim continua virando as páginas.
À tarde, recebi uma mensagem inesperada. Um amigo que eu não via há anos me chamou para um café. Cheguei atrasado, como sempre. Ele estava lá, com o mesmo sorriso de antes, mas com rugas novas nos olhos. Contou que tinha passado por um divórcio, perdido o emprego, mas que, no meio do caos, descobriu que queria ser escritor. Mostrou o primeiro capítulo de um livro que estava escrevendo. Era cru, imperfeito, cheio de erros – mas era dele. E eu pensei: “Isso é o que acontece quando a gente aceita que o roteiro pode ser reescrito.”
No fim do dia, caminhei para casa sob uma chuva fina que ninguém esperava. Não tinha guarda-chuva, mas não me importei. Molhei-me inteiro, ri sozinho na rua vazia. Porque, se a vida fosse uma série, aquele seria o episódio final da temporada: o herói, encharcado, mas vivo, olhando para o horizonte e sabendo que o próximo capítulo pode ser qualquer coisa.
A vida é uma obra em construção, sim. Cheia de imprevistos, reviravoltas, lágrimas e risadas inesperadas. Você pode traçar um roteiro, planejar os arcos, definir os vilões e os aliados. Mas o melhor da história acontece quando você larga o controle e deixa o destino dirigir por um tempo. Porque, no fundo, não importa se você é o herói ou o anti-herói da própria trama.
O que importa é que você continue escrevendo. Mesmo que seja só mais um dia. Mesmo que seja só mais uma página. E, quem sabe, no próximo capítulo, você descubra que o maior triunfo não é chegar ao fim da jornada – é aprender a amar cada curva do caminho.
Por Roberto Faustino.
